Pular para o conteúdo
← Todos os textos
Teleconsulta · 5 min de leitura

A mesma escuta, pela tela.

A teleconsulta psiquiátrica nasceu de uma emergência e ficou. O que se perde quando a consulta acontece numa tela, o que se ganha, e por que a pergunta certa não é se funciona, mas para quem.

Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·

Em março de 2020, a psiquiatria brasileira mudou de lugar em uma semana. Consultórios fecharam, e o Conselho Federal de Medicina, que até então tratava a telemedicina com desconfiança, liberou o atendimento por vídeo em caráter de emergência. Muitos de nós aprendemos na prática, com a câmera do notebook e a conexão caindo. Dois anos depois, em 2022, a liberação virou regra: a Resolução 2.314 regulamentou a telemedicina no país, inclusive a primeira consulta por vídeo, com a mesma validade da presencial. A emergência passou. A teleconsulta ficou, e hoje é uma parte considerável do que faço.

Escrevo este texto porque, seis anos depois, ainda escuto as duas versões extremas: a de que consulta pela tela “não é a mesma coisa”, dita com desdém, e a de que é exatamente a mesma coisa, dita com entusiasmo de quem vende. As duas erram. A tela muda a consulta. A questão é saber o que ela muda, e para quem a mudança compensa.

O que a pesquisa diz

A psiquiatria é, entre as especialidades médicas, uma das que melhor se adaptam ao vídeo, por uma razão simples: o instrumento principal é a conversa. Os estudos que compararam atendimento por vídeo e presencial em depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e acompanhamento de quadros estáveis encontraram, de modo consistente, resultados equivalentes em melhora dos sintomas, em adesão e em satisfação. A qualidade do vínculo, medida pelos próprios pacientes, não cai de forma relevante. Isso não é opinião de quem gosta de tecnologia; é o que décadas de pesquisa, antes e depois da pandemia, acumularam.

Há exceções, e elas importam. Quadros em crise aguda, situações de risco, pessoas em que o exame do corpo faz parte da avaliação, dependências com abstinência intensa que exigem observação: nesses casos a tela não basta, e um médico sério diz isso na primeira conversa, em vez de descobrir no meio.

A tela muda a consulta. A questão é saber o que ela muda, e para quem a mudança compensa.

O que se perde

Aprendi com a psicopatologia clássica que o exame psíquico começa antes de a pessoa falar: na maneira de entrar na sala, de sentar, de olhar, no cheiro de álcool que a palavra não conta, no tremor da mão que fica fora do enquadramento. A tela enquadra, e o que ela enquadra é o rosto. Perco o resto do corpo, perco a sala de espera, perco os segundos de silêncio em que a pessoa decide se vai contar ou não. Perco também o espaço neutro: no consultório, a pessoa sai de casa para falar; na teleconsulta, fala de dentro da vida que quer discutir, às vezes com a porta encostada e alguém do outro lado.

Não minimizo essas perdas. Compenso-as com perguntas que no consultório não precisaria fazer: peço que a pessoa afaste a câmera, pergunto se há alguém ouvindo, pergunto o que ela comeu e quanto dormiu em vez de ler isso na aparência. É uma clínica mais falada e menos observada, e exige do médico um cuidado que a presença dispensa.

O que se ganha

O primeiro ganho é o óbvio, e é enorme: o Brasil tem psiquiatras concentrados nas capitais e em poucas cidades grandes, e uma parte do país simplesmente não tem a quem procurar. Pela tela, atendo pessoas em cidades onde o psiquiatra mais próximo está a três horas de estrada, e brasileiros que moram fora e querem ser atendidos na própria língua, por alguém que entende de onde vêm. O segundo ganho é a continuidade: quem viaja a trabalho, quem mudou de cidade, quem está em recuperação e não consegue sair de casa continua o tratamento em vez de interrompê-lo. O terceiro é menos falado: vejo a pessoa onde ela vive. O quarto desorganizado, o cachorro, a estante, o barulho da família ao fundo contam coisas que a sala neutra não conta.

E há um ganho que me surpreendeu: para algumas pessoas, especialmente as com ansiedade social, a tela é a única distância que torna a primeira consulta possível. Elas não viriam ao consultório. Vêm à tela, e, meses depois, muitas vêm ao consultório.

A etiqueta da tela

Algumas coisas práticas, para quem vai fazer. A câmera na altura dos olhos, e não no colo. Um lugar reservado, com fones, porque a consulta é sigilosa e a sua família não precisa participar sem ser convidada. O celular no silencioso, inclusive o meu. A mesma duração do presencial: cinquenta minutos é cinquenta minutos, e desconfie de quem oferece a versão de quinze porque “online é mais rápido”. E a mesma lógica de pagamento, de receita, de recibo: a teleconsulta não é uma consulta de segunda categoria, e não deve ser cobrada nem tratada como tal.

Para quem, então

Para quem não tem acesso. Para quem precisa de continuidade. Para quem não conseguiria chegar de outro jeito. Para quem prefere, e esse motivo também vale. Não para quem está em risco imediato, não para quem precisa ser examinado, e não como atalho para uma consulta mais curta e mais barata. Atendo pela tela com a mesma seriedade com que atendo na sala sem escrivaninha, e com um cuidado a mais: o de lembrar que, do outro lado, há um corpo inteiro que a câmera não mostra, e que é minha obrigação perguntar por ele.

Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.

Continue lendo
Agendar teleconsulta →Consultório →