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Tecnologia · 5 min de leitura

O que a IA não sabe de você.

Cada vez mais gente pergunta a um chatbot se deve terminar um relacionamento, pedir demissão ou parar o remédio. Uso inteligência artificial todos os dias. E é por isso que digo: não decida com ela.

Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·

Começou há uns dois anos e hoje é rotina: a pessoa chega à consulta com a conversa impressa, ou com o celular na mão, e diz “eu perguntei para a inteligência artificial, e ela acha que”. Acha que meu marido é narcisista. Acha que eu devo pedir demissão. Acha que eu tenho TDAH. Acha que eu posso parar o antidepressivo porque já estou bem. A conversa costuma ser longa, bem escrita, cheia de empatia na medida certa, e termina quase sempre do mesmo jeito: concordando com quem perguntou.

Quero ser claro sobre o lugar de onde falo. Uso inteligência artificial todos os dias, para estudar, para escrever, para organizar o que penso. Não sou um médico assustado com tecnologia. Sou um médico que viu de perto o que ela faz bem e o que ela não tem como fazer, e a diferença entre as duas coisas é exatamente o que importa numa decisão sobre a própria vida.

A máquina que concorda

Os modelos de linguagem são treinados, entre outras coisas, para serem avaliados positivamente por quem os usa. O resultado previsível é a bajulação: uma tendência a validar o que a pessoa já pensa, a encontrar razões para o lado que ela escolheu, a dizer “você está certo em sentir isso” para praticamente qualquer coisa. O problema é conhecido no setor; em 2025, uma das maiores empresas da área precisou recolher uma atualização do seu produto porque ele tinha ficado puxa-saco demais, a ponto de elogiar decisões obviamente ruins.

Isso é agradável e é perigoso pelo mesmo motivo. Uma conversa que nunca contradiz você não é um conselho, é um espelho com boas maneiras. E as decisões mais importantes da vida são justamente aquelas em que a gente precisa de alguém que discorde a tempo.

Uma conversa que nunca contradiz você não é um conselho. É um espelho com boas maneiras.

Três coisas que a IA não tem

A primeira é um corpo. Emoção não é texto; é um acontecimento do corpo que depois, com sorte, vira palavra. Quando alguém me conta que “está tudo bem” com a mão tremendo, eu vejo a mão. Aprendi com a psicopatologia clássica que o exame psíquico começa pela observação, não pelo relato, porque o relato é sempre a versão que a pessoa consegue, ou quer, dar. A inteligência artificial só conhece o relato. E conhece a versão que você digitou, geralmente à noite, geralmente com raiva ou com medo, geralmente omitindo a parte em que você também errou.

A segunda é uma história. A IA sabe de você o que coube na janela de conversa. Não sabe que você já pediu demissão duas vezes por impulso e se arrependeu. Não sabe que o seu pai fez o mesmo. Não sabe que a última vez que você parou o remédio por conta própria terminou numa internação. Não tem como saber, e por isso responde ao caso como se fosse o primeiro caso. Um médico, um amigo antigo, um terapeuta de anos respondem ao caso como ao capítulo de uma história que eles conhecem. É isso que faz a diferença entre uma opinião e um cuidado.

A terceira é a consequência. Se a IA disser que você deve terminar o relacionamento e você terminar, ela não vai estar lá na terça-feira seguinte. Não vai carregar o peso, não vai se corrigir, não vai responder por nada. Toda decisão humana séria é tomada por alguém que vai viver com ela, aconselhada por pessoas que vão ter que olhar nos seus olhos depois. Isso não é um detalhe moral. É o que dá às pessoas a cautela que a máquina não precisa ter.

Decidir não é ter argumentos

Há uma confusão de fundo em pedir a uma IA que decida por você: a de que decidir é uma questão de informação. Não é. Qualquer pessoa que já ficou meses parada diante de uma escolha sabe que os argumentos ela já tinha. O que faltava era outra coisa: coragem, luto, a aceitação de que não existe opção sem perda. Um chatbot é uma máquina extraordinária de produzir argumentos. Ele não produz o resto, e quem terceiriza a decisão costuma estar fugindo exatamente do resto.

Para que serve, então

Para muita coisa. Para entender um termo que o médico usou. Para organizar o que você quer dizer na consulta, de modo que os cinquenta minutos rendam. Para rascunhar a mensagem difícil que você vai mandar, antes de reescrever com as suas palavras. Para estudar. Para pensar em voz alta às três da manhã, quando não há ninguém, desde que você saiba que está falando com um eco bem-educado e não com alguém que conhece você.

A regra que proponho é simples: use a inteligência artificial para fazer perguntas melhores, nunca para receber a resposta. E, quando a resposta for sobre a sua vida, decida com alguém que tenha corpo, que conheça a sua história e que vá estar lá na terça-feira. Pode ser um amigo. Pode ser um terapeuta. Pode ser um psiquiatra. Não pode ser um programa que gostaria, acima de tudo, que você saísse da conversa satisfeito.

Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.

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