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Sono · 4 min de leitura

Quem tem medo de dormir?

Tratamos a insônia como um defeito do interruptor. Mas dormir não é desligar: é entregar-se. E há quem passe a noite inteira montando guarda.

Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·

A pergunta costuma vir antes do cumprimento. “Doutor, o que o senhor me dá para dormir?” Ela já traz embutida uma teoria sobre o sono: a de que ele é um interruptor, de que o meu está com defeito e de que existe uma peça de reposição em forma de comprimido. É uma teoria razoável. Também é a razão pela qual o Brasil figura há anos entre os maiores consumidores de clonazepam do mundo.

Não vou fingir que o comprimido não existe nem que ele nunca ajuda. Existe, ajuda, e há noites em que é exatamente o que uma pessoa precisa. O problema é outro: a teoria do interruptor explica muito pouco sobre o que acontece com alguém que, exausto, deita, apaga a luz e descobre que o corpo se recusa.

A única coisa que não se faz por esforço

Pense em tudo o que você consegue fazer quando se esforça: trabalhar, estudar, correr, fingir que está bem. Agora tente dormir com esforço. Quanto mais a pessoa tenta, mais acordada fica, e esse é o paradoxo central da insônia. Dormir é a única atividade humana que falha justamente quando é tentada. Ela só acontece quando deixa de ser tentada.

O psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira dedicou um livro inteiro a essa estranheza. Em A erótica do sono, publicado em 2021, ele propõe que dormir é uma experiência de abandono: despir-se do dia, soltar o controle e confiar que o desconhecido, por algumas horas, não vai nos devorar. Chamar isso de “erótica” não é provocação gratuita. É lembrar que o sono, como o amor, exige entrega, e que há pessoas para quem entregar-se é a coisa mais difícil do mundo.

Shakespeare já sabia. Depois de matar o rei, Macbeth ouve uma voz dizer que ele assassinou o sono. Não é o remorso que o mantém acordado, é algo anterior: quem precisa vigiar não pode dormir, porque dormir é, por definição, parar de vigiar.

Dormir é a única atividade humana que falha justamente quando é tentada.

Montando guarda

No consultório, a insônia raramente chega sozinha. Chega com uma pessoa que, durante o dia, segura tudo: o trabalho, a casa, a família, a aparência de que está bem. À noite, o que deveria ser descanso vira a única hora em que ninguém pede nada, e é justamente aí que a cabeça aproveita para cobrar. Não é raro ouvir “eu só penso quando deito”. É claro que sim: foi a única brecha que sobrou.

Essa pessoa não tem um interruptor quebrado. Tem um motivo para não largar o posto, mesmo que não saiba qual é. Às vezes o motivo é uma ansiedade que nunca foi tratada. Às vezes é uma depressão que acorda às quatro da manhã, pontual. Às vezes é álcool, que dá sono e tira o sono no mesmo movimento. Às vezes é apneia, e nada disso é psicológico. E às vezes é a vida mesmo, naquele formato que ninguém escolheu.

O que a ciência recomenda, e por que ninguém faz

Aqui vai um dado que surpreende quem me procura: as principais diretrizes do mundo, inclusive a da Academia Americana de Medicina do Sono, não indicam remédio como primeira linha para a insônia crônica. Indicam uma terapia, a cognitivo-comportamental para insônia, que funciona reeducando a relação da pessoa com a cama, com o horário e com a própria expectativa de dormir. Os resultados duram mais que os dos medicamentos e não cobram juros.

Por que, então, a prateleira do clonazepam é tão maior que a fila da terapia? Porque o comprimido obedece à teoria do interruptor, e a terapia a contradiz. Ela pede que a pessoa saia da cama quando não dorme, que desista de controlar, que tolere algumas noites ruins no caminho. Pede, em resumo, entrega. E entrega é o que estava faltando.

Então o remédio é inútil?

Não. Há insônias que precisam ser interrompidas antes de serem compreendidas, porque ninguém pensa bem depois de três semanas sem dormir. Há quadros, como a depressão e o transtorno bipolar, em que o sono é sintoma e tratar a causa resolve a consequência. E há medicamentos bem mais adequados que os benzodiazepínicos para isso, com menos risco de dependência e de quedas, sobretudo em quem é mais velho.

O que eu discordo é do atalho. Quando alguém me pede algo para dormir, a resposta honesta começa por outra pergunta, que raramente tem resposta na primeira consulta: o que você está vigiando? Às vezes a pessoa ri. Às vezes fica em silêncio. Nas duas situações, o tratamento começou.

Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.

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