Cinquenta minutos.
Uma consulta psiquiátrica de quinze minutos não é uma consulta mais curta. É outra coisa. Sobre o tempo como instrumento clínico, e sobre o que ele compra.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
Toda especialidade médica tem um instrumento que a define. O cardiologista tem o eletrocardiograma, o radiologista tem a imagem, o cirurgião tem as mãos. A psiquiatria, com raras exceções, tem apenas isto: uma pessoa escutando outra. Paulo Dalgalarrondo abre o seu tratado de psicopatologia lembrando que o principal instrumento do exame psíquico é o próprio examinador. Não há aparelho entre o médico e o paciente. Há tempo, atenção e a disposição de ser surpreendido.
É por isso que uma consulta psiquiátrica de quinze minutos não é uma consulta mais curta. É outra coisa. É um exame feito sem o instrumento.
A consulta de lista
Conheço o formato, porque passei por ele na formação e vejo residentes serem empurrados para ele todos os dias. Chama-se consulta de lista: humor, sono, apetite, energia, ideias de morte, efeitos colaterais. Marcam-se os sintomas, ajusta-se a dose, marca-se a próxima. É eficiente, é defensável e às vezes é tudo o que um serviço lotado consegue oferecer. Também é a razão pela qual tanta gente chega ao meu consultório com cinco diagnósticos, oito medicamentos e a sensação de nunca ter sido ouvida.
A lista tem um defeito de origem: ela só encontra o que já procura. Se eu pergunto sobre tristeza, encontro tristeza. O que a pessoa não sabia que importava, a parte da história que ela nunca contou porque ninguém perguntou, fica fora da planilha. E é justamente aí que costuma estar o diagnóstico que faltava, ou o motivo pelo qual o tratamento anterior não funcionou.
Compreender e explicar
Há mais de cem anos, o psiquiatra e filósofo Karl Jaspers fez uma distinção que Dalgalarrondo traz para o centro da clínica brasileira: uma coisa é explicar um fenômeno mental por suas causas, outra é compreendê-lo a partir da vida de quem o vive. Uma tristeza que vem de uma tireoide desregulada se explica. Uma tristeza que vem de um casamento que acabou se compreende. A boa psiquiatria faz as duas coisas, e o erro mais comum não é escolher a errada, é pular a segunda por falta de tempo.
Compreender não tem atalho. Exige que a pessoa conte, e contar leva tempo, porque a parte importante quase nunca vem no começo. Vem depois de uma pausa, quando ela já desistiu de impressionar e passou a falar de verdade. Mario Eduardo Costa Pereira, outro professor a quem devo muito, costuma insistir que o sofrimento psíquico tem uma lógica própria, singular, e que a clínica consiste em deixar essa lógica aparecer em vez de encaixá-la de antemão num manual. Não se encaixa nada em quinze minutos. Mal se abre o manual.
Cinquenta minutos não é generosidade. É o tempo que a surpresa leva para aparecer.
O que o tempo não compra
Seria desonesto transformar o relógio em virtude. Cinquenta minutos de monólogo do médico são piores do que vinte de atenção verdadeira. Tempo sem método vira conversa; tempo sem ciência vira palpite. Também sei que a consulta longa é um privilégio, que o sistema de saúde não a oferece a todos e que parte do meu trabalho, no serviço público e na formação de residentes, é descobrir o que se consegue salvar da escuta quando o tempo é curto. A resposta curta é: mais do que parece, desde que se saiba o que procurar.
Mas no consultório, onde posso escolher, escolho o tempo. Não por generosidade, e sim porque é o tempo que a surpresa leva para aparecer. A pessoa que chega com “ansiedade” e sai com uma pergunta sobre o que faz da vida. A que vinha “renovar a receita” e descobre, no minuto quarenta, por que nunca aceitou o diagnóstico. A que estava tratando uma depressão havia anos e tinha, na verdade, outra coisa.
Uma sala sem escrivaninha
Atendo numa sala em estilo de estar, sem escrivaninha entre mim e quem me procura. Não é decoração. A escrivaninha é o lugar onde se preenche a lista, e eu quis tirar a lista da frente. O que sobra é uma conversa entre duas pessoas, uma delas com formação para saber o que escutar, e as duas com tempo para que a história chegue até o fim.
Um diagnóstico, no final das contas, é um resumo. Quanto mais longa a história, melhor o resumo. E ninguém resume bem o que não teve tempo de ler.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.