O que o álcool organiza.
Trabalho num CAPS AD, o serviço público que atende quem sofre com o uso de álcool e outras drogas. Algumas certezas que eu trazia de fora não resistiram ao primeiro mês.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
Além do consultório, atendo num CAPS AD, o Centro de Atenção Psicossocial para álcool e outras drogas, que é o serviço público, aberto e gratuito, criado pela reforma psiquiátrica brasileira para cuidar de quem sofre com o uso de substâncias sem precisar ser internado para isso. Fui para lá com formação, com leitura e com algumas certezas. As certezas foram as primeiras a ir embora.
A droga mais aceita é a que mais mata
Comecemos pelo que os números dizem e a cultura esconde. O álcool é a substância que mais causa mortes, doenças e violência no Brasil, à frente de todas as drogas ilegais somadas. Também é a única que se oferece numa festa de criança, que se anuncia na televisão e cujo uso diário é tratado como traço de personalidade: fulano “gosta de uma cerveja”. Quando esse mesmo fulano chega ao CAPS, a família costuma estar há anos oscilando entre duas frases: “ele não tem problema” e “ele não tem vergonha na cara”. As duas erram pelo mesmo motivo. Dependência não é falta de problema nem falta de caráter. É uma condição médica, com biologia, com história e com tratamento.
Quando o uso passa a organizar a rotina
No meu site, descrevo assim o motivo de alguém me procurar por álcool: quando o uso passa a organizar a rotina, mesmo trazendo prejuízos. Essa definição é mais útil do que contar doses. Há quem beba muito num sábado e passe o resto da semana sem pensar no assunto. E há quem beba “só duas” todos os dias, mas planeje o horário, o percurso, o dinheiro e as desculpas em função dessas duas. O que define o problema não é a quantidade. É a posição que o álcool ocupa: de coadjuvante a organizador.
A pergunta que faço é simples e costuma desarmar: o que o álcool resolve para você? A resposta raramente é “nada”. É ansiedade, é insônia, é a voz na cabeça, é a timidez, é uma dor nas costas que ninguém investigou, é o luto que ninguém perguntou. O álcool é um péssimo tratamento para todas essas coisas, mas é um tratamento disponível, barato e que funciona em dez minutos. Enquanto o cuidado não oferecer algo que funcione também, pedir que a pessoa pare é pedir que ela fique sem nada.
Enquanto o cuidado não oferecer algo que funcione, pedir que a pessoa pare é pedir que ela fique sem nada.
O fundo do poço é um mito caro
Uma das certezas que perdi foi a de que a pessoa precisa “querer de verdade”, chegar ao fundo do poço, para que o tratamento comece. Na prática, o fundo do poço é onde muita gente morre. E quem chega ao CAPS quase nunca chega querendo parar: chega querendo que o filho volte a falar com ele, que o emprego não acabe, que a mão pare de tremer de manhã. Esse é o começo possível, e começar por aí é melhor do que esperar a conversão.
A estratégia tem nome, redução de danos, e costuma ser mal compreendida como permissão para continuar bebendo. Não é. É a decisão de cuidar da pessoa onde ela está, reduzindo o que a mata enquanto ela decide o quanto quer mudar. Quem se sente respeitado nessa fase quase sempre avança mais do que quem recebe um ultimato. E quem recebe um ultimato quase sempre some.
O que a medicina tem a oferecer
Mais do que se imagina, e menos do que seria ideal. Existem medicamentos para reduzir a vontade de beber, outros para tratar a abstinência com segurança, e tratar a ansiedade, a depressão ou a insônia que estavam embaixo do uso faz uma diferença enorme. Existe psicoterapia, existem grupos, existe a família, quando ela consegue sair do lugar de polícia e entrar no lugar de aliada. Nada disso funciona sozinho, e nada disso é mágico. O que funciona é o conjunto, sustentado por uma relação em que a pessoa não precisa mentir sobre a recaída para continuar sendo atendida.
Levo isso do CAPS para o consultório. Quem me procura por álcool no particular tem outra história, outra renda, outras saídas, mas a mesma pergunta embaixo: o que isso resolve para você? Quando a resposta aparece, o tratamento já começou. E, se a resposta for difícil de dizer em voz alta, tudo bem. É para isso que a consulta tem cinquenta minutos.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.