O que o pânico sabe.
O pronto-socorro diz que não é nada. O coração diz que é tudo. Entre as duas respostas, há uma pergunta que a crise veio fazer.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
A primeira crise quase sempre tem um cenário banal: a fila do supermercado, o semáforo, a reunião, o meio da madrugada. O coração dispara, o ar não entra, as mãos formigam, e uma certeza toma conta: vou morrer agora, ou vou enlouquecer, ou vou perder o controle na frente de todo mundo. A pessoa vai ao pronto-socorro. Eletrocardiograma normal, exames normais. “É só ansiedade”, diz o plantonista, com pressa e boa intenção. E ela volta para casa com a sensação de que viveu a coisa mais aterrorizante da vida e de que ninguém acreditou.
O “só” é a parte cruel. Ele é verdadeiro do ponto de vista cardiológico e falso do ponto de vista humano. Nada que faz uma pessoa ter certeza da própria morte é “só” alguma coisa.
Duas histórias sobre a mesma crise
A psiquiatria conta duas histórias sobre o pânico, e as duas estão certas. A primeira é a do alarme defeituoso: um sistema de defesa, desenhado para nos tirar da frente de um predador, dispara sem predador. O corpo faz tudo o que faria numa fuga real, e a mente, sem encontrar o perigo, conclui que o perigo é o próprio corpo. Daí o círculo vicioso descrito nos anos 1980 pelo psicólogo David Clark: a pessoa interpreta a taquicardia como infarto, o medo aumenta a taquicardia, e a profecia se cumpre por alguns minutos. Essa história tem um tratamento bom e bem estudado, que combina medicação, quando necessária, e uma terapia que ensina o corpo a não ter medo do próprio medo.
A segunda história é mais antiga e menos confortável. O psiquiatra e psicanalista Mario Eduardo Costa Pereira, com quem tive o privilégio de estudar, escreveu em 1999 um livro chamado Pânico e desamparo. A tese é que a crise não é apenas um disparo errado do sistema nervoso. É a experiência, brutal e sem palavras, de que não há garantia nenhuma: de que ninguém segura a gente, de que o chão pode faltar. Freud chamava isso de desamparo, a condição do bebê que não sobrevive sem o outro. O pânico, nessa leitura, não inventa um perigo. Encontra, por um instante, um perigo que sempre esteve lá e que a vida adulta tinha conseguido esquecer.
O pânico não inventa um perigo. Encontra, por um instante, um perigo que sempre esteve lá.
Descrever antes de explicar
Entre uma história e outra, há um trabalho que a pressa costuma pular: descrever. Aprendi com Paulo Dalgalarrondo, cujo tratado de psicopatologia formou gerações de psiquiatras brasileiros, que a forma de uma experiência diz tanto quanto o seu conteúdo. Não basta anotar “crise de ansiedade”. É preciso saber como ela começa, o que a pessoa pensa no auge, o que faz em seguida, de que passou a fugir depois. O pânico de quem acha que vai morrer não é o mesmo de quem acha que vai enlouquecer, e cada um pede uma conversa diferente.
Essa descrição é o que uma consulta de quinze minutos não comporta, e é também o que transforma “só ansiedade” em algo que a pessoa reconhece como seu. Muita gente sai da primeira consulta aliviada não porque recebeu uma receita, mas porque, pela primeira vez, alguém achou a crise interessante em vez de exagerada.
O que a crise interrompeu
Há uma pergunta que eu faço com cuidado, nunca na primeira vez: o que estava acontecendo na sua vida no mês da primeira crise? As respostas são variadas e quase nunca são “nada”. Um luto que não foi chorado. Uma separação. Um filho que nasceu. Uma promoção que parecia boa notícia. Com frequência, o pânico chega quando algo que sustentava a pessoa deixou de sustentar, e ela ainda não tinha percebido.
Não digo isso para transformar toda crise em símbolo. Há pânicos que respondem a uma dose certa de medicação e a algumas semanas de exposição gradual, e ponto final. Mas há outros que insistem, voltam, trocam de cenário, e esses costumam estar guardando a pergunta que a pessoa não quis fazer. O tratamento, nesses casos, não é calar a crise. É deixá-la terminar a frase.
Para quem acabou de ter a primeira
Três coisas. A crise passa, sempre, em geral em menos de meia hora, mesmo quando parece que não. Ela não é sinal de fraqueza nem de loucura: o sistema que dispara nela é o mesmo que mantém qualquer pessoa viva. E o medo de ter outra crise é tratável, e é esse medo, mais do que a crise em si, que costuma encolher a vida de alguém.
O pânico dura minutos. A pergunta que ele deixa pode levar meses. Vale a pena respondê-la acompanhado.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.