O homem que se inventou.
Don Draper, de Mad Men, é o personagem mais admirado da televisão e um dos mais solitários. Sobre o que custa ser uma versão de si mesmo que dá certo.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
Don Draper não existe. Quem existe é Dick Whitman, filho de uma prostituta que morreu no parto, criado por um pai violento e depois numa casa de prostituição, que foge para a Guerra da Coreia e, num acidente, troca de identidade com um oficial morto. Volta para casa com outro nome, outra biografia e uma regra: nunca olhar para trás. Com esse material, constrói o homem mais admirado de Madison Avenue, o publicitário brilhante, o marido de revista, o sujeito que entra numa sala e a sala se reorganiza.
Mad Men, de Matthew Weiner, passou sete temporadas mostrando o preço disso. É uma das melhores séries já feitas, e eu a leio, com o desconto que a ficção merece, como um estudo de caso sobre uma coisa que vejo no consultório toda semana: a pessoa que deu certo e não consegue sentir que foi ela que deu certo.
O self que dá certo
O psicanalista inglês Donald Winnicott descreveu, nos anos 1960, o que chamou de falso self: uma organização da personalidade construída para corresponder ao que o ambiente espera, que protege um self verdadeiro que ficou escondido por não ter sido bem recebido. Não é mentira nem teatro. É uma estratégia de sobrevivência, e muitas vezes funciona esplendidamente. O falso self é competente, agradável, bem-sucedido. O problema é que ele colhe os elogios e o self verdadeiro continua com fome.
Don é a versão máxima disso. Quanto mais ele é admirado, mais sozinho fica, porque sabe que o admirado é a invenção. Nenhum prêmio chega ao Dick. E cada pessoa que se aproxima demais, cada mulher que quer conhecê-lo de verdade, vira uma ameaça: ser conhecido é ser descoberto. Daí as fugas, as traições, as mudanças de emprego, as viagens sem avisar. Daí também o álcool, que na série é elegante e em qualquer consultório seria chamado pelo nome.
O falso self colhe os elogios. O self verdadeiro continua com fome.
Tenho tudo e não sinto nada
A versão contemporânea de Don Draper não trabalha com publicidade; trabalha com a própria imagem. Chega ao consultório por volta dos trinta, com uma carreira que impressiona, um perfil que impressiona, e uma frase que repete quase palavra por palavra: tenho tudo o que eu queria e não sinto nada. Às vezes recebe um diagnóstico de depressão, e às vezes é depressão mesmo. Mas com frequência o que há é outra coisa: a pessoa construiu uma versão que dá certo e está vivendo na casa dessa versão, como inquilina.
O sintoma mais comum é o da síndrome do impostor, que não é um diagnóstico, mas é uma experiência precisa: a certeza de que vão descobrir. Descobrir o quê, pergunto. A resposta demora e, quando vem, raramente é sobre competência. É sobre história. É sobre o lugar de onde a pessoa veio e que decidiu não levar junto.
O que a série sabe sobre tratamento
Mad Men não tem um psiquiatra como personagem central, mas tem uma intuição clínica certeira: Don só respira nos momentos em que alguém o chama de Dick. Com a mulher de um amigo morto, com uma secretária que descobriu tudo e não o abandonou, com a filha, no fim, a quem ele finalmente conta de onde veio. A cada vez que a história real aparece e o mundo não acaba, ele fica um pouco menos sozinho. É, em miniatura, o que uma boa psicoterapia faz: cria um lugar onde o Dick pode existir sem que o Don precise morrer.
O final da série é famoso e ambíguo: Don em retiro, meditando numa colina californiana, e o sorriso que pode ser paz ou pode ser a próxima campanha. Weiner nunca explicou, e acho que fez bem. Na clínica, a resposta também não é definitiva. As pessoas que se inventaram não precisam destruir a invenção; ela as salvou. Precisam de algo mais modesto e mais difícil: alguém diante de quem a história inteira possa ser dita, para que o sucesso, finalmente, tenha a quem pertencer.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.