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Literatura · 4 min de leitura

A única que enxerga.

Em Ensaio sobre a Cegueira, uma mulher conserva a visão numa cidade de cegos e passa a cuidar de todos. É o retrato mais exato que conheço de quem cuida de alguém que adoeceu.

Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·

Uma epidemia de cegueira branca toma uma cidade sem nome. O governo tranca os primeiros cegos num manicômio abandonado, e entre eles vai uma mulher que não cegou. Ela mente que cegou para acompanhar o marido, médico. Dentro daquele lugar, onde a comida falta e a dignidade acaba antes, ela se torna a única que enxerga. E, porque enxerga, passa a ser responsável por tudo: guia, alimenta, limpa, protege, decide, enterra. Ninguém pede. Ela simplesmente vê, e quem vê não consegue fingir que não viu.

José Saramago publicou Ensaio sobre a Cegueira em 1995. Lê-se como alegoria política, e é. Mas eu leio, há anos, como o retrato mais exato que conheço de uma pessoa que todo psiquiatra atende sem que ela esteja na agenda: quem cuida.

Quem cuida não aparece na ficha

A filha que administra os remédios do pai com Alzheimer. A mãe de um adulto que bebe. O marido de uma mulher com depressão grave. A irmã que atende o telefone às três da manhã. Na minha ficha, essas pessoas constam como “acompanhante”. Na vida, são a mulher do médico: as únicas que enxergam a situação inteira, que organizam a casa em torno da doença e que, por enxergar, não se dão o direito de desabar.

Há um momento no livro em que ela, exausta, deseja ser cega também. Não por desespero teatral. Por cansaço de ver. Escuto versões dessa frase com frequência: “às vezes eu queria não saber”, “eu queria poder ser a pessoa que não percebe”. É a confissão mais difícil que um cuidador faz, porque vem carregada de culpa. Como posso querer não ver, se sou a única que vê?

Quem cuida precisa, mais do que de conselhos, de alguém que o veja.

A sobrecarga tem nome e tem sintomas

A medicina chama isso de sobrecarga do cuidador, e o quadro é conhecido: cansaço que o sono não resolve, irritabilidade, sensação de estar sempre em dívida, abandono da própria saúde, isolamento, e com frequência uma depressão ou uma ansiedade que a pessoa não trata porque “não é ela quem está doente”. Em alguns estudos, quem cuida de um familiar com demência adoece tanto quanto o familiar, só que sem diagnóstico, sem receita e sem licença.

O mais perverso é a lógica que sustenta tudo: se eu parar, quem segura? A mulher do médico sabe que, se ela fechar os olhos, o grupo morre. Mas o leitor percebe o que ela não consegue perceber: se ela não dormir, não comer e não chorar, o grupo morre do mesmo jeito, só que um pouco depois, junto com ela.

O que eu digo a quem cuida

Três coisas, nessa ordem. A primeira: você também é paciente desta história, mesmo que ninguém tenha dito. Marque uma consulta para você, não para falar da outra pessoa. A segunda: cuidar não é fazer tudo; é garantir que tudo seja feito, e isso inclui delegar, contratar, aceitar ajuda de quem oferece e pedir a quem não oferece. A terceira é a mais difícil: você tem direito de querer não ver. Esse desejo não é traição. É um sinal de que a conta chegou, e contas se pagam melhor com ajuda do que com culpa.

No final do romance, a cegueira passa. As pessoas recuperam a visão uma a uma, e a mulher do médico, que nunca a perdeu, fica olhando para a cidade com um medo novo: o de ser ela, agora, a cegar. Saramago deixa a pergunta no ar, e eu a devolvo a quem cuida: quem olha por você enquanto você olha por todos?

Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.

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