Correr não é remédio. É melhor que isso.
“Faça exercício” é o conselho mais dado e menos seguido da saúde mental. Haruki Murakami, que corre há quarenta anos, explica sem querer por quê.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
Há uma frase que toda pessoa deprimida já ouviu, geralmente de alguém que gosta dela: “você precisava fazer um exercício”. A frase está correta. E costuma cair como uma acusação, porque quem a escuta já sabe disso e não consegue. A depressão tira exatamente a energia que o conselho exige. É como recomendar uma caminhada a quem está com a perna quebrada e depois se espantar com a falta de adesão.
Quero defender o exercício. Mas quero defendê-lo contra a maneira como ele é receitado.
O que os estudos mostram
Primeiro, os fatos. A atividade física regular reduz sintomas de depressão e de ansiedade, e isso não é opinião de personal trainer: é o resultado de centenas de ensaios clínicos. Uma grande revisão publicada no BMJ em 2024 comparou dezenas de modalidades e encontrou efeito em caminhada, corrida, musculação, ioga e dança, com uma observação importante: quanto mais intensa a atividade, maior o efeito. Para quadros leves e moderados, o exercício compete em pé de igualdade com outros tratamentos. Para quadros graves, ele ajuda, mas não substitui.
Até aqui, nada que justifique este texto. O problema começa na tradução desses dados para a vida de alguém que não consegue sair da cama.
O corredor que não corre para ficar feliz
Haruki Murakami, meu escritor favorito, começou a correr aos 33 anos, quando vendeu o bar que tinha em Tóquio para escrever em tempo integral. Em Do que eu falo quando falo de corrida, ele conta que corre uma maratona por ano há décadas, e o livro é tudo menos um manual de motivação. Murakami não corre para ser feliz. Corre porque escrever romances exige um corpo que aguente, e porque, na corrida, a cabeça fica vazia de um jeito que nenhuma outra atividade consegue produzir.
Há uma passagem em que ele descreve o que pensa enquanto corre: nada de especial. Pensamentos passam como nuvens, e ele os deixa passar. Esse vazio é a parte que a prescrição médica esquece. A corrida, para Murakami, não é um remédio que se toma. É um lugar onde se mora por uma hora, sem metas, sem público, sem a obrigação de estar melhorando.
O exercício que funciona não é o que impressiona. É o que se repete.
O relógio que estraga a corrida
Aqui está, a meu ver, o erro de quem receita exercício para a mente usando a lógica do exercício para o corpo. A cultura fitness transformou o movimento em mais uma planilha: pace, calorias, zonas de frequência cardíaca, sequência de dias sem falhar. Para muita gente, especialmente para os adultos jovens que mais me procuram, isso não acalma nada. Acrescenta um painel de desempenho a uma vida que já é só painel de desempenho. A pessoa que se sente insuficiente no trabalho passa a se sentir insuficiente também no parque.
Murakami tem um mantra que ouviu de um corredor mais velho: a dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Eu diria o mesmo da planilha. Correr cansa, e isso não se evita. Transformar o cansaço em prova de valor pessoal é uma escolha, e uma escolha ruim para quem já se cobra demais.
Como eu receito, quando receito
Começo pequeno a ponto de parecer ridículo. Dez minutos de caminhada, não trinta. Três vezes por semana, não todo dia. A meta não é o condicionamento, é a repetição, porque o que faz efeito na mente é a regularidade, não a intensidade do primeiro dia seguido de três semanas de culpa. Prefiro o que se repete ao que impressiona.
Também presto atenção ao contrário. Há pessoas para quem o exercício não é tratamento, é sintoma: quem corre para compensar o que comeu, quem treina com febre, quem entra em pânico ao perder um dia. Nos transtornos alimentares, que estudei de perto, a atividade física pode ser o problema vestido de solução, e nesses casos o que eu prescrevo é descanso.
E, para quem está no fundo da depressão, deixo claro que o exercício é a segunda etapa. A primeira é recuperar energia suficiente para calçar o tênis, e isso às vezes passa por medicação, por psicoterapia e por tempo. Cobrar a corrida de quem ainda não consegue levantar não é tratamento. É mais um peso.
Murakami tem uma frase sobre o que gostaria que escrevessem na lápide dele: que ao menos nunca caminhou. Admiro a teimosia. Mas, no consultório, ensino o oposto: caminhar é permitido, parar é permitido, e recomeçar na semana seguinte vale mais do que ter corrido ontem. O corpo não precisa de um treinador. Precisa de alguém que volte amanhã.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.