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Literatura · 4 min de leitura

O que a euforia não conta.

Kay Redfield Jamison, psicóloga e referência mundial em transtorno bipolar, recusou o lítio por anos. Uma Mente Inquieta explica por quê, e explica melhor do que qualquer aula.

Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·

Há um livro que eu gostaria que todo residente de psiquiatria lesse antes de prescrever o primeiro estabilizador de humor. Não é um tratado. É a autobiografia de Kay Redfield Jamison, professora de psiquiatria na Johns Hopkins, coautora do principal manual sobre doença maníaco-depressiva do mundo e, ela mesma, portadora de transtorno bipolar. Uma Mente Inquieta, de 1995, conta como uma das maiores especialistas no assunto passou anos recusando o tratamento que ela própria ensinava.

Esse é o ponto. Não foi ignorância. Foi algo que as aulas raramente explicam: a euforia é boa demais.

O que se perde quando se trata

Jamison descreve as primeiras fases de exaltação com uma honestidade que incomoda: a mente rápida, as ideias que se encadeiam sozinhas, a sensação de que o mundo finalmente está na velocidade certa, o sono dispensável, a certeza de ser capaz de tudo. Depois vem o excesso, as dívidas, a loucura propriamente dita, e depois a depressão, que ela descreve como o preço cobrado por tudo aquilo. Mas o começo é sedutor, e quem já esteve lá sabe que o lítio não tira só a doença. Tira também aquele estado em que a vida parecia, enfim, à altura.

Quando um paciente abandona o estabilizador de humor, a explicação clínica é “má adesão”. A explicação humana é luto. A pessoa está de luto por uma versão de si mesma que o remédio aposentou. Se o médico não entender isso, vai passar anos aumentando a dose de um comprimido que a pessoa não toma.

Quando um paciente abandona o estabilizador, a explicação clínica é má adesão. A humana é luto.

O que o lítio faz, e o que não faz

O lítio é o estabilizador de humor mais antigo ainda em uso e, até hoje, um dos mais eficazes, com um efeito que nenhum outro replicou da mesma forma: reduz o risco de suicídio, o que, numa doença em que esse risco é alto, não é detalhe. Jamison deve a vida a ele, e diz isso sem rodeios. Mas ela diz outra coisa, igualmente importante e menos citada: o lítio evitou que ela morresse, e a psicoterapia foi o que a ensinou a viver com o que sobrou. Remédio sem conversa, para ela, teria sido insuficiente. Conversa sem remédio teria sido fatal.

Essa combinação, que parece óbvia, ainda é vista com desconfiança dos dois lados. Há quem ache que um transtorno “químico” dispensa a escuta, e há quem ache que um bom processo de autoconhecimento dispensa o comprimido. Jamison, que sabia mais de bipolaridade do que quase qualquer pessoa viva, precisou dos dois. Não me parece prudente que o resto de nós dispense um deles.

A pergunta que ela faz no final

Perto do fim do livro, Jamison se pergunta se, podendo escolher, teria nascido sem a doença. A resposta dela é surpreendente e condicional: com lítio, não; sem lítio, sim. Ela não romantiza o transtorno, viu de perto o que ele destrói. Mas também não finge que ele é só perda. A intensidade, a sensibilidade, a profundidade com que vive os afetos fazem parte de quem ela é, e o tratamento, bem feito, permitiu que ela ficasse com essa parte e perdesse a parte que mata.

Guardo esse trecho para as conversas em que alguém me diz que não quer “virar outra pessoa”. A resposta honesta é que o objetivo do tratamento é exatamente o contrário: é impedir que a doença, não o remédio, decida quem a pessoa vai ser. Jamison levou anos para aceitar isso. Tinha o conhecimento todo e, mesmo assim, precisou de tempo. Quem está começando o tratamento agora não precisa ter pressa. Precisa, apenas, não enfrentar sozinho.

Se você está passando por um momento de sofrimento intenso, o CVV atende de graça, a qualquer hora, pelo 188. Em situação de risco imediato, procure a emergência mais próxima ou ligue 192.

Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.

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