Ninguém se cura sozinho.
Em O Filho de Mil Homens, um pescador solitário monta uma família com as pessoas que ninguém quis. Valter Hugo Mãe escreveu, sem querer, um tratado sobre o que a psiquiatria chama de rede de apoio.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
Crisóstomo é pescador, tem quarenta anos e, numa manhã, assume a tristeza de não ter um filho. Não é uma tristeza dramática. É uma falta que ele reconhece, nomeia e resolve atender. Vai buscar um menino, Camilo, que também não tinha ninguém. Depois chega Isaura, mulher que a aldeia considerou estragada. Depois Antonino, que a própria mãe tratou como vergonha. A casa de Crisóstomo vai se enchendo das pessoas que o mundo descartou, e o romance de Valter Hugo Mãe, publicado em 2011, vira a crônica de uma família que não tem sangue em comum, só a decisão de se querer.
O título explica o resto: um filho de mil homens é alguém feito de muitas mãos. Nenhum de nós, no fundo, é filho de menos que isso.
A solidão como fator de risco
A medicina demorou a levar a solidão a sério, e hoje a leva mais do que o público imagina. Em 2015, uma grande revisão de estudos, conduzida pela psicóloga Julianne Holt-Lunstad, estimou que o isolamento social aumenta o risco de morte precoce numa proporção comparável à do tabagismo e maior que a da obesidade. Em 2023, a Organização Mundial da Saúde criou uma comissão só para o tema. Não é metáfora: estar sozinho adoece o corpo.
No consultório, a solidão aparece disfarçada. Chega como insônia, como ansiedade, como uma depressão que não responde ao segundo antidepressivo. E quando pergunto “quem é a sua gente?”, a pausa que vem antes da resposta diz mais do que qualquer escala. Há pessoas com centenas de contatos no celular que não têm a quem ligar quando o chão some. Há quem more com a família e não seja visto por ela há anos.
Um filho de mil homens é alguém feito de muitas mãos. Nenhum de nós é filho de menos que isso.
Rede de apoio não é um termo bonito
Quando um psiquiatra escreve “rede de apoio” no prontuário, está registrando algo tão concreto quanto a pressão arterial. Quem tem gente adere melhor ao tratamento, tolera melhor as crises, volta mais rápido ao trabalho e recai menos. Quem não tem precisa, antes de qualquer outra coisa, construir. E construir rede, para um adulto, é quase sempre o que Crisóstomo faz: ir buscar. Ninguém aparece sozinho na porta.
Isso é mais difícil do que tomar um comprimido, e é por isso que o comprimido costuma vir primeiro. Um antidepressivo pode devolver a energia necessária para que alguém aceite um convite, retome uma amizade, procure um grupo. Mas o remédio não faz a ligação. Quem faz é a pessoa, e o papel do médico é não deixar essa parte do tratamento cair da lista só porque não cabe numa receita.
As famílias que a gente escolhe
O que mais me comove no livro é que a família de Crisóstomo não é feita de pessoas inteiras. Isaura, Antonino, Camilo, todos chegam machucados, e é justamente o machucado que os reconhece uns nos outros. A psiquiatria, quando é boa, sabe disso: os melhores grupos de apoio são formados por pessoas que passaram pela mesma coisa, e alguns dos vínculos mais sólidos que vejo nascem em salas de espera, em grupos de alcoólicos em recuperação, em comunidades de pais de crianças autistas.
Valter Hugo Mãe escreve sobre isso sem nenhuma pedagogia, o que é a melhor maneira de escrever sobre qualquer coisa. Ele só mostra uma casa se enchendo. Eu, que não sou escritor, fico com a versão clínica: ninguém se cura sozinho, e tratamento é também o trabalho de descobrir, ou de inventar, quem são os seus mil homens.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.