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Literatura · 4 min de leitura

A vida que espera para começar.

Em O Deserto dos Tártaros, um tenente passa a vida inteira esperando o inimigo que vai dar sentido a tudo. Conheço esse tenente. Ele senta na minha poltrona toda semana.

Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·

Giovanni Drogo tem vinte e poucos anos quando recebe o primeiro posto: a Fortaleza Bastiani, na fronteira com um deserto de onde, dizem, um dia virão os tártaros. Ele chega decidido a ficar quatro meses. Fica a vida inteira. Não por covardia nem por ordem superior: fica porque todo dia parece cedo demais para ir embora e tarde demais para ter ido. E porque, no fundo, espera. Espera o inimigo que vai transformar aqueles anos de rotina num destino.

Dino Buzzati publicou O Deserto dos Tártaros em 1940. Não é um livro sobre guerra. É um livro sobre o tempo, e sobre a maneira como a gente o deixa passar enquanto aguarda a vida verdadeira, aquela que vai começar depois.

Depois de quê?

Escuto a frase em várias versões. Depois que eu passar no concurso. Depois que a casa ficar pronta. Depois que a ansiedade melhorar. Depois que eu emagrecer, que o divórcio sair, que o filho crescer, que a empresa estabilizar. Depois disso, aí sim: vou viajar, vou procurar alguém, vou escrever, vou descansar. A pessoa não está deprimida, insiste. Está só esperando o momento certo.

O problema é que o momento certo tem a mesma natureza dos tártaros: todo mundo garante que ele existe, ninguém o viu de perto. Enquanto isso, a Fortaleza oferece o que oferece: uma rotina, uma hierarquia, horários, pequenas honras, a sensação de estar fazendo o que deve ser feito. Drogo não é infeliz na Fortaleza. É isso que torna o livro insuportável. Se ele fosse infeliz, iria embora.

Drogo não é infeliz na Fortaleza. É isso que torna o livro insuportável.

Como a ansiedade e a depressão mexem no relógio

Há uma psicopatologia do tempo que os manuais pouco descrevem e que a literatura descreve muito bem. Na ansiedade, o futuro invade o presente: a pessoa vive na antecipação, e o agora vira só o corredor de espera para o que pode dar errado. Na depressão, acontece o contrário: o futuro desaparece, o horizonte encolhe, e o presente fica pesado como se fosse definitivo. Drogo passa pelos dois estados. Primeiro espera demais. Depois, quando os anos pesam, deixa de esperar e já não sabe por que ficou.

Em ambos os casos, a saída que a pessoa imagina é a mesma: uma mudança externa, grande, que resolva tudo de uma vez. O inimigo no horizonte. A promoção. O remédio certo. E é aqui que o psiquiatra precisa de honestidade: às vezes existe, sim, uma mudança externa importante a fazer, e um bom tratamento ajuda a pessoa a encontrar coragem para ela. Mas na maior parte das vezes o que trava a vida não é a falta do grande acontecimento. É o hábito de esperar por ele.

A rotina como anestesia

Buzzati é preciso num detalhe: a Fortaleza tem regras para tudo, inclusive para a troca de senha, inclusive para a hora de dormir. Essa ordem é confortável. Ela dispensa a pessoa de decidir. E decidir, para quem está ansioso, é a coisa mais cansativa do mundo. Por isso tanta gente escolhe um emprego que detesta, uma relação que esfriou ou uma cidade que não gosta: não por amor a eles, mas por alívio de não ter que escolher outra coisa.

No consultório, costumo perguntar o que a pessoa faria se soubesse, com certeza, que os tártaros nunca vão chegar. Que a empresa nunca vai estabilizar, que a ansiedade vai melhorar mas não vai sumir, que a casa sempre vai ter uma reforma pendente. A resposta costuma ser um silêncio e, depois, uma lista bem concreta. A lista é o tratamento. O silêncio era o sintoma.

O fim de Drogo

Não vou contar o final, mas digo o essencial: os tártaros aparecem. Quando Drogo já está velho, doente e sendo mandado embora. Ele não participa da batalha que esperou a vida inteira. E então, sozinho, num quarto de estalagem, enfrenta a única batalha que ninguém pode adiar, e enfrenta bem, com uma dignidade que a Fortaleza nunca tinha pedido dele.

Leio esse final de duas maneiras, e as duas servem à clínica. A primeira é dura: a vida que se adia não espera; ela acontece sem a gente. A segunda é mais gentil, e é a que eu guardo para as consultas: nunca é tarde para estar presente no que está acontecendo, mesmo quando o que está acontecendo não é o que se esperava. Drogo descobre isso na última página. Prefiro que as pessoas que me procuram descubram antes.

Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.

Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.

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