A mente de 32 mil anos.
Em A Caverna dos Sonhos Esquecidos, Werner Herzog filma as pinturas mais antigas conhecidas. O que elas mostram sobre nós é a parte mais tranquilizadora da psiquiatria.
Por Dr. Lutero Cassol, médico psiquiatra ·
Em 1994, três espeleólogos encontraram, no sul da França, a entrada de uma caverna fechada por um desmoronamento havia mais de vinte mil anos. Dentro, intactas, estavam centenas de pinturas: leões, cavalos, rinocerontes, ursos, um bisão com oito patas, as mais antigas já encontradas, com cerca de trinta e dois mil anos. A caverna de Chauvet é fechada ao público. Werner Herzog conseguiu entrar com uma equipe mínima, e o resultado é A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de 2010, um documentário que eu assisto de tempos em tempos como quem volta a um lugar.
O que me leva de volta não é a arqueologia. É uma pergunta que Herzog faz com a voz dele, grave e meio irônica, enquanto a câmera percorre a parede: o que se passava na cabeça de quem pintou isto? E a resposta, que o filme não dá e eu tento dar, é a parte mais tranquilizadora da minha profissão.
O mesmo cérebro
Quem pintou Chauvet era anatomicamente igual a nós. O mesmo cérebro, o mesmo tamanho, a mesma organização. O que mudou nesses trinta e dois mil anos foi tudo o que está em volta: a linguagem escrita, a cidade, o relógio, o emprego, a notificação. O equipamento é o mesmo. Isso significa que o medo que você sente diante de uma reunião é o medo que alguém sentia diante de um leão, rodando no mesmo circuito, com as mesmas substâncias. A tristeza pela perda de alguém usa a mesma rede que usava quando a perda era de um companheiro de caça. A ansiedade não é um defeito moderno. É um sistema de alarme muito antigo trabalhando num ambiente para o qual não foi desenhado.
Digo isso com frequência no consultório, e vejo o efeito. A pessoa que chegou achando que tem “alguma coisa errada” descobre que o que ela tem é, antes de tudo, um aparelho normal reagindo de um modo que já foi útil. O tratamento continua necessário, porque o leão não está mais lá e o alarme continua tocando. Mas a vergonha diminui, e sem vergonha se trata melhor.
A ansiedade não é um defeito moderno. É um alarme muito antigo num ambiente para o qual não foi desenhado.
O homem do dedo torto
Há, nas paredes de Chauvet, dezenas de marcas de mãos feitas com tinta vermelha. Os pesquisadores identificaram que várias delas são da mesma pessoa, um homem com o dedo mínimo torto, cujas mãos aparecem em pontos diferentes da caverna. Trinta e dois mil anos depois, a gente sabe que ele existiu, que andou por ali, que quis deixar marca. Não sabemos o nome. Sabemos o gesto.
Esse gesto, o de pôr a mão na parede e dizer “estive aqui”, é talvez a coisa mais humana que existe, e é também o que escuto por baixo de boa parte do sofrimento que me chega. O medo de não ter importado. A sensação de passar pela vida sem que ninguém perceba. A depressão, em especial, convence a pessoa de que sua marca não existe ou não vale. O homem do dedo torto é a resposta mais antiga que conheço a isso: a marca vale, e dura mais do que quem a fez poderia imaginar.
Pintar o que não se pode controlar
Os animais de Chauvet não são decoração. São o que ameaçava e o que alimentava: o que não se podia controlar. Representar aquilo numa parede, à luz de tochas, era uma maneira de conviver com o que assustava. A psiquiatria, bem depois, deu outros nomes a esse mecanismo, e a psicoterapia, no fundo, é uma versão dele: pôr em palavras o que, enquanto fica mudo, só pode ser sofrido. Contar o medo a alguém é a tocha e a parede.
Herzog termina o filme com uma cena estranha, de crocodilos albinos num criadouro aquecido pela água de uma usina nuclear próxima, e pergunta o que eles fariam das pinturas se chegassem até elas. É uma piada e não é. É a lembrança de que nós também olhamos para o passado com os olhos que temos, e que os pintores de Chauvet, se nos vissem, talvez não entendessem nada, exceto o essencial: que a gente ainda tem medo, ainda deseja, ainda perde, e ainda sente a necessidade de deixar a mão na parede.
Dr. Lutero Cassol é médico psiquiatra em Joinville (SC) e preceptor da Residência Médica de Psiquiatria de Joinville. CRM-SC 34625 · RQE 29241.
Este texto tem caráter informativo e não substitui uma consulta.